Os incêndios de grande dimensão podem ficar incontroláveis, mas o pior é quando eles próprios alteram e complexificam a situação meteorológica, mudando ventos e a direção das chamas, alertou o especialista Rui Salgado, da Universidade de Évora.
Físico e professor catedrático, o especialista em Física da Atmosfera, Rui Salgado falava à agência Lusa a propósito dos grandes incêndios de França e da formação de pirocúmulos-nimbos, um fenómeno raro que na imprensa foi chamado de "nuvens de fogo".
O especialista confirmou que é um fenómeno raro mas não lhe chama "nuvem de fogo", disse que acontece quando há incêndios muito intensos e a lógica é a mesma que leva a formarem-se nuvens por cima de vulcões ativos.
Rui Salgado explicou que em casos de uma fonte de calor (como o aquecimento da terra, ou um incêndio) pode formar-se um movimento vertical ascendente de ar quente (convecção), que pode dar origem a cúmulos (nuvens brancas, "com aspeto de algodão") ou em casos de calor intenso a cúmulos-nimbos (nuvens de tempestade/trovoada).
Na convecção provocada pelos incêndios muito intensos o ar quente vai carregado de vapor de água, produzido pelo desenvolvimento do incêndio (a água das plantas que ardem evapora) e pelo vapor normal existente na atmosfera.
Nas explicações do responsável a instabilidade da atmosfera, a condensação e outras dinâmicas que potenciam o movimento ascendente levam à formação de nuvens e à possibilidade de raios.
A estas nuvens chama-se pirocúmulo e pirocúmulo-nimbo (as que provocam as trovoadas), porque se formam pela energia dada pelo incêndio, e podem criar descargas elétricas na frente dos fogos, com os raios a provocar por vezes novos focos de incêndio.
E não chove? Na verdade na atmosfera está a chover mas como a atmosfera está tão quente as gotas da chuva evaporam antes de atingirem a superfície, explicou, acrescentando que essas descargas elétricas podem criar "condições bastante difíceis" de combate a um incêndio. Mas há outra dificuldade ainda que começa com outra lógica da física: "se o ar sobe de um lado tem de descer do outro".
O vento ao descer de forma muito intensa (movimento vertical, conhecido como "downburst") quando chega à superfície espalha-se e dá origem a alterações na direção e intensidade do vento, o que coloca "desafios complexos no combate".
Foram estes fenómenos que aconteceram agora em Gironda, França, e que já tinham acontecido em 2017 em Pedrógão Grande. Quase meia centena de pessoas morreram numa estrada e isso relacionou-se com a rotação rápida do vento, associada a correntes verticais muito intensas, explicou agora o professor.
Rui Salgado disse que um pirocúmulo-nimbo, a nuvem de trovoada, acontece em incêndios muito fortes e acrescentou que um pirocúmulo, uma nuvem com fumo, é mais frequente. "Um incêndio grande normalmente provoca pirocúmulos".
Os pirocúmulos são tão frequentes que no próximo ano, com especialistas espanhóis e franceses, será feito um estudo sobre eles, usando aviões meteorológicos e outros equipamentos. "Infelizmente há sempre situações destas no verão", constatou.
E os pirocúmulos tornam os incêndios incontroláveis? Mesmo sem eles um incêndio de grandes dimensões é incontrolável a partir de um certo limite, disse.
Porque "os próprios incêndios alteram a situação meteorológica" e dão origem "a alterações que não estariam previstas quando se está a olhar para a meteorologia em si", para os modelos meteorológicos, para a direção do vento.
Foi o que aconteceu em França, com situações extremas, com incêndios dos maiores de sempre e também em Portugal em 2017, em Pedrógão Grande, mas também depois em outubro desse ano na região centro, com meia centena de mortes numa vaga de incêndios nos dias 15 e 16.