O Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA) alertou hoje para o agravamento do impacto das ondas de calor na saúde, pedindo às autoridades uma resposta coordenada, incluindo a criação de centros de arrefecimento para proteger os mais vulneráveis.
A associação defende que os municípios criem centros de arrefecimento, espaços públicos seguros sinalizados, frescos e acessíveis, e que o sistema de saúde reforce a vigilância, os planos de contingência e o acompanhamento ativo das pessoas em maior risco.
“As ondas de calor são a consequência das alterações climáticas que estão a evoluir segundo os cenários mais pessimistas” e Portugal é um país particularmente vulnerável a este fenómeno devido à proximidade com o Norte de África, “mas também porque tem uma população muito envelhecida e grandes desigualdades sociais que fazem com que a questão da eficiência energética seja um problema grave”, disse à agência Lusa o presidente do CPSA, Luís Campos.
Dados reunidos pela associação indicam que, até 2021, Portugal registava uma a três ondas de calor em média por ano. Desde 2022, o padrão tornou-se mais frequente e prolongado, com uma média de seis a oito ondas de calor.
Observa que “só em 2026, até 26 de junho, foram já registadas cinco ondas de calor, num total acumulado de 59 dias com temperaturas pelo menos 5 °C acima da média para a época”.
“Estas ondas de calor têm sido mais duradouras, mais intensas e começam a aparecer fora do período de verão. Portanto, isto é algo que temos que ter consciência e temos que nos adaptar a este agravamento das ondas de calor”, salientou Luís Campos, apelando às autoridades públicas para adotarem uma resposta permanente, coordenada e centrada na proteção dos grupos mais vulneráveis.
Defende “uma atuação multissetorial que junte o sistema de saúde, com as autarquias, o Governo e os vários ministérios".
“Mas o Conselho recomenda em particular para o sistema de saúde que tem que haver uma vigilância epidemiológica da mortalidade, da morbilidade em tempo real, alertas precoces, e isso tem acontecido em relação à previsão das ondas de calor, e planos de contingência atualizados em hospitais, em centros de saúde, em cuidados continuados, em lares e creches”, defendeu.
Também é necessário “um contacto proativo com pessoas isoladas, particularmente idosos, doente crónicos ou populações em risco social, como pessoas sem abrigo”.
O sistema de saúde também deve disponibilizar informação pública simples sobre prevenção, hidratação, arrefecimento da habitação e sintomas de golpe de calor, como sede, cansaço, cãibras, náuseas, até ao quadro mais grave de hipertermia, em que as pessoas começam com taquicardia, com pele quente e suada, febre, uma situação de emergência hospitalar, explicou.
Por outro lado, os hospitais, centros de saúde e outras infraestruturas, devem adaptar os edifícios do calor extremo, com sistemas de ventilação, sombreamento e vegetação adequados, bem como dar formação dos profissionais de saúde em saúde climática e resposta a eventos extremos.
A nível dos municípios, o CPSA defende uma identificação em cada cidade de um centro de arrefecimento, climatizado, com horários alargados, acessíveis, onde haja acessibilidade também à água potável, onde haja um encaminhamento social.
“Os municípios têm que mapear as ilhas de calor, as zonas onde existe mais calor, e a diferença de temperatura entre as zonas mais quentes e fora da cidade poder atingir os sete graus centígrados”, salientou.
Luís Campos defendeu ainda o investimento no arrefecimento das cidades, através do reforço das zonas e corredores verdes, coberturas vegetais nos edifícios, mais bebedouros públicos, materiais urbanos que absorvam menos calor e soluções de sombreamento e ventilação das habitações.
Alertou ainda para a necessidade de legislação específica para proteger os trabalhadores mais expostos durante as ondas de calor.