O cientista Miguel Soares vai receber uma bolsa de 2,5 milhões de euros para estudar como o aumento do pigmento bilirrubina, que causa o amarelecimento da pele e dos olhos, sinal de doença, pode atuar contra a malária.
O anúncio foi feito hoje em comunicado pelo Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular, onde o investigador lidera o Laboratório de Inflamação.
A bolsa de 2,5 milhões de euros com que Miguel Soares foi distinguido pelo Conselho Europeu de Investigação, a segunda do género na sua carreira, vai permitir, a si e à restante equipa, estudar nos próximos cinco anos como a bilirrubina, que em níveis elevados no sangue provoca icterícia, "pode atuar contra o parasita da malária, proteger os tecidos do hospedeiro e influenciar a resposta imunitária".
Num estudo anterior, divulgado há um ano na revista científica Science, Miguel Soares descobriu que a acumulação de bilirrubina, comum nos doentes com malária mais grave, pode ser uma resposta adaptativa do corpo que confere proteção contra a doença ao matar o parasita na origem da infeção, limitando a sua propagação e reduzindo danos nas células.
A equipa propõe-se agora "mapear as múltiplas formas como a bilirrubina", pigmento processado no fígado e eliminado em condições normais pela bílis, "pode atuar durante a infeção por malária: como arma contra o parasita, como escudo para os tecidos do hospedeiro e como potencial modulador das respostas imunitárias e da eficácia das vacinas".
Para Miguel Soares, coordenador do trabalho, que recorrerá a modelos animais e a células humanas, ao se perceber como a bilirrubina pode proteger contra a malária será possível no futuro "desenvolver intervenções terapêuticas" contra a doença.
Em 2024, segundo as mais recentes estimativas publicadas pela Organização Mundial de Saúde, a malária atingiu 282 milhões de pessoas, matando 610 mil.
África é região do mundo que concentra a maioria dos casos (95%) e onde as crianças com menos de 5 anos morrem em maior número (75%).