O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) reconheceu hoje que o aumento do número de utentes, devido à imigração, coloca sobre o SNS uma pressão acrescida, mas não justifica, por si, a falta de médicos de família.
“É muito difícil imputar a responsabilidade da situação em que estamos a um único fator”, começou por dizer Xavier Barreto, em declarações à Lusa, reconhecendo o “aumento enorme da população, via imigração”, que a ministra da Saúde apontou, no sábado, como contrapeso ao reforço dos médicos de família.
"As circunstâncias que vivemos, com o aumento populacional brusco - causado pelo acolhimento de imigrantes que entraram no país sem regras e sem humanismo, a que acresce a existência de redes organizadas que se aproveitam da bondade da democracia e de negócios ilegais assentes nas ineficiências dos sistemas de saúde de outros países -, fazem com que o esforço e o sucesso que temos tido no aumento do número de médicos de família pareça não existir”, afirmou Ana Paula Martins, durante uma intervenção no congresso do PSD.
Da parte dos administradores hospitalares, Xavier Barreto ressalvou, por um lado, que a imigração ilegal representa “uma parte muito residual” dessa pressão acrescida sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e acrescentou, por outro lado, que a explicação para a falta de médicos é bem mais complexa.
“Se a população aumenta e se essa população tem necessidade de ter acesso ao SNS, o que nós temos que fazer - partindo do pressuposto de que essa população faz falta e que está cá a trabalhar - é capacitar o SNS”, defendeu.
Para o responsável, capacitar o SNS passa, sobretudo, por melhorar a capacidade infraestrutural das unidades de saúde e reter mais médicos no setor público, mas também repensar a organização dos profissionais e dos cuidados.
“Se tivéssemos, por exemplo, novas profissões ou profissões que já existem, mas adquirem novas competências, a ter um outro papel na prestação de cuidados, provavelmente o número de médicos que temos já seria suficiente porque poderiam concentrar-se, por exemplo, a fazer novas consultas e novos diagnósticos”, explicou.
Na prática, essa reorganização poderia passar pela atribuição da gestão de doentes crónicos a enfermeiros, ou pelo reforço dos rastreios e vacinação nas farmácias, cenários que Xavier Barreto disse já existirem noutros países.
“Não podemos olhar para isto de uma forma simplista. Não podemos dizer que são só os imigrantes ou que é só a retenção de profissionais ou que é só a organização. São várias coisas e todas têm que estar alinhadas”, concluiu.
O Instituto Nacional de Estatística atualizou hoje o número de residentes em Portugal para 11.424.031 pessoas, graças à contabilização de 1.597.539 pessoas estrangeiras.
De acordo com o INE, os dados anteriormente divulgados foram atualizados, concluindo que, "entre 2021 e 2025, a população residente aumentou 824.914 pessoas, destacando-se os anos de 2022, 2023 e 2024, nos quais se verificaram fluxos migratórios excecionalmente elevados, traduzindo-se em acréscimos populacionais", respetivamente, de 330 mil, 275 mil e 183 mil pessoas.