O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) chegou hoje à noite a Kinshasa, capital da República Democrática do Congo (RD Congo), onde autoridades sanitárias congolesas e internacionais têm tido dificuldades em conter a grave epidemia de Ébola.
O avião de Tedros Adhanom Ghebreyesus aterrou em Kinshasa, constataram jornalistas da agência de notícias francesa AFP no local, e deverá deslocar-se na sexta-feira à região de Ituri (nordeste), epicentro da epidemia de Ébola.
A RD Congo declarou uma epidemia da doença de Ébola a 15 de maio, a 17.ª a afetar o vasto país da África Central que tem cerca de 100 milhões de habitantes.
O foco desta epidemia situa-se na província de Ituri (nordeste), mas o vírus já se propagou para duas províncias vizinhas, assim como para o Uganda, país que faz fronteira com a RD Congo, onde foram registadas sete casos de confirmados, incluindo um fatal, de infeção pela doença.
Mais de 1.000 casos suspeitos, dos quais 246 mortes, foram registados até agora.
A OMS desencadeou um alerta sanitário internacional. Mas a dimensão real da epidemia ainda não é conhecida e as autoridades de saúde internacionais estimam que os números, provavelmente, estejam subavaliados.
"Vocês não estão sozinhos", escreveu Tedros Adhanom Ghebreyesus numa carta aberta dirigida aos congoleses, apelando para "agirem agora, juntos".
"Sei que muitos de vós estão exaustos", continuou antes de acrescentar "já carregam tanto: a malária, a fome, a insegurança e a luta diária para garantir a segurança das vossas famílias. E agora a ébola. Isto não é justo, e eu não fingirei o contrário".
A epidemia atual é provocada pela variante Bundibugyo, para a qual não existe nem tratamento específico nem vacina.
A maioria das epidemias anteriores foi causada pelo vírus Zaire, o único para o qual uma vacina está aprovada.
"Até ao final do ano de 2026, o Africa CDC garantirá que dispomos de uma vacina e de um medicamento contra Bundibugyo", comprometeu-se hoje Jean Kaseya, o chefe da agência sanitária da União Africana (UA), durante um briefing online.
Tedros Adhanom Ghebreyesus deverá deslocar-se na sexta-feira para Ituri, onde a resposta tarda em organizar-se.
Esta região remota tem sido devastada há anos pelas violências de grupos armados, os rebeldes da ADF afiliados ao Estado Islâmico ou milícias comunitárias em conflito.
O grupo armado antigovernamental M23, apoiado pelo Ruanda e pelo seu exército, por sua vez tomou, progressivamente, desde o início de 2025, tem assumido o controlo de vastos territórios do Norte e Sul de Kivu, também eles palco de violências quase ininterruptas há mais de 30 anos.
Tedros Adhanom Ghebreyesus voltou a apelar a um cessar-fogo: "Nenhuma causa, nenhum conflito, nenhuma queixa vale a pena condenar inocentes a morrer de uma doença evitável", afirmou. "Imploro-vos: deem-nos o espaço para ajudar as pessoas que mais precisam", apelou o responsável da OMS.
Aquela organização declarou hoje em comunicado ter recebido 4,6 toneladas de material médico no aeroporto de Bunia.
A UNICEF também indicou, num comunicado, estar a começar a transportar por via aérea mais de 100 toneladas de bens humanitários para a RD Congo.
Na quarta-feira, Kampala fechou temporariamente a sua fronteira com a RD Congo "devido ao contínuo agravamento da dimensão da epidemia".
O chefe da diplomacia americana, Marco Rubio, assegurou na quarta-feira que os Estados Unidos não deixarão "entrar um único caso de Ébola" no país.
O país pretende abrir no Quénia um centro de quarentena para os casos suspeitos ou confirmados de Ébola, essencialmente americanos, confirmou um responsável sob anonimato.
Na sexta-feira passada, a OMS aumentou a sua avaliação do risco para a saúde pública na RD Congo para o nível máximo, continuando por enquanto a considerar este risco como "elevado" a nível regional e "baixo" ao nível mundial.
O vírus já matou mais de 15.000 pessoas em África nos últimos 50 anos. A epidemia mais mortal na RD Congo causou cerca de 2.300 mortos entre 3.500 doentes entre 2018 e 2020.