No Hospital Padre Américo, em Penafiel, há quem aprenda a fazer amigos, mas também a lidar com a rejeição ou a identificar situações de 'bullying', num programa dedicado a jovens frequentemente associados à Perturbação do Espetro do Autismo.
Num total de 10 sessões agendadas, Aida Monteiro só não levou a filha (13 anos) uma vez porque receou fazer os cerca de 45 quilómetros que separam Cinfães, onde vive, de Penafiel e encontrar o caminho alagado.
“Mas se fizessem mais sessões, ela ia. Foi muito importante. Hoje a minha filha começa a ter conversas que eu identifico: isso vem do grupo, vem das estratégias. Ela sabe que tem alguns défices, gosta de estar no canto dela, e a principal dificuldade dela era comunicar. Lá ela estava muito bem, criou amigos, ficou mais confiante”, contou à Lusa.
Também Maria Silva, mãe de uma jovem de 17 anos residente em Penafiel, gostava que o programa se prolongasse por mais sessões.
À Lusa contou que após a quarta ou quinta sessão, os jovens, que antes não gostavam de interagir uns com os outros, já queriam chegar mais cedo e ficar na sala de espera a conviver e sem ficar “pendurados” nos familiares.
“Isto cria competências aos miúdos e ajuda as mães. Os jovens que entraram no início não eram os mesmos que saíram. A minha folha criou laços, fez amigos, encontrou pessoas com interesses comuns e eu comecei a entender muita coisa”, descreveu.
Ambas participaram no mais recente grupo do PEERS – 'Program for the Education and Enrichment of Relational Skills' que em português livre significa “Programa para a Educação e o Enriquecimento das Competências Relacionais” – que uma equipa da Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa (ULSTS) dinamizou no início deste ano.
Criado em 2022, dirigido a jovens com idades entre os 13 e os 18 anos com dificuldades associadas à Perturbação do Espetro do Autismo com elevado funcionamento e que tenham dificuldades ao nível das competências sociais, o PEERS da ULSTS, que já conta mais de 30 jovens na lista de presenças e é dinamizado por uma equipa composta por psicólogas e terapeutas ocupacionais, vai arrancar com um segundo grupo em setembro.
“Porque faz sentido fazer isto enquanto os jovens têm aulas, para eles poderem colocar em prática as competências trabalhadas aqui”, explica a psicóloga Cristina Costa, lembrando que o objetivo é “o desenvolvimento de ferramentas práticas que permitem construir e manter amizades, promovendo maior autonomia e integração social”.
É por isso que às mães coube, por exemplo, em casa ver se a filhas cumpriam os “trabalhos de casa” das sessões que às vezes eram coisas aparentemente simples como mandar uma mensagem a um amigo e manter uma conversa sobre um interesse comum.
É que iniciar e manter conversas, criar e sustentar amizades, lidar com rejeição e situações de 'bullying' e gerir conflitos de forma eficaz são algumas das competências desenvolvidas em sessões onde até podem ser simuladas situações reais e são discutidas experiências do quotidiano, do dia a dia.
“Ensinamos os miúdos certas e determinadas competências (…). E a ideia é que os pais se certificarem de que eles cumprem”, acrescentou a terapeuta ocupacional, Rita Fonseca, corroborada pela psicóloga Alexandra Ribeiro, responsável pela ligação às famílias.
“A grande inquietação dos pais que vêm à consulta é mesmo esta questão da socialização dos seus filhos, porque muitos deles são jovens que se isolam, que não sabem fazer amizades, não sabem o que é preciso para ter um amigo, para fazer uma amizade, e nós falamos muito desta questão dos interesses em comum, de que eles devem encontrar grupos com os quais se identifiquem”, referiu.
A ULSTS junta o Hospital Padre Américo (Penafiel) e o Hospital de São Gonçalo (Amarante), bem como os centros de saúde destes territórios, e serve uma população de cerca de meio milhão de pessoas, de 11 municípios.
Na informação remetida à agência Lusa, é descrito que “um dos elementos diferenciadores do PEERS é o envolvimento ativo dos pais, que participam em sessões próprias e aprendem estratégias para apoiar a aplicação das competências no dia a dia”.
“Mais do que um programa, o PEERS é uma ferramenta transformadora que promove confiança, inclusão e qualidade de vida”, termina.