A Unidade Local de Saúde de Santo António (ULSSA), no Porto, confirmou hoje que está a preparar, com a orientação da Direção-Executiva do Serviço Nacional de Saúde, a criação de uma unidade de colocação de válvulas aórticas percutâneas (TAVI).
Numa resposta enviada à agência Lusa, o conselho de administração da ULSSA recorda que tem vindo a demonstrar vontade de concretizar este projeto para melhorar os tempos de resposta, mas não adianta prazos nem qual o modelo em análise.
“Na última década, o Hospital de Santo António demonstrou vontade de sediar uma unidade funcional dedicada a cirurgia coronária e à colocação de TAVI [sigla em inglês], melhorando os tempos de resposta aos seus doentes. Atualmente, contamos com a orientação da Direção-Executiva do Serviço Nacional de Saúde para se encontrar o modelo, o parceiro institucional e a calendarização de uma unidade de colocação de TAVI”, lê-se na resposta, que também não responde às questões da Lusa sobre se há já conversações com os responsáveis de centros de referência da região e quais.
A secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, considerou na quarta-feira que a ULS Santo António reúne condições para ser centro de referência afiliado para a colocação de válvulas aórticas percutâneas.
“Muito do que está aqui em causa é permitir que aquela unidade comece a fazer TAVI como centro afiliado. Acontece que a colocação de TAVI, tal como norma da Direção-Geral de Saúde, implica que exista uma equipa cirúrgica ‘on-house’ que, com uma unidade de cirurgia cardíaca afiliada de um ou de qualquer centro, tornaria possível. Já tem um cirurgião cardíaco, bastava vir outro e mais a restante equipa”, disse Ana Povo.
A governante foi ouvida na Assembleia da República, a pedido do Chega, a propósito da possibilidade de criação de um novo centro de cirurgia cardíaca na região Norte, numa audição cuja visualização ‘online’ ficou sem som após cerca de 45 minutos de transmissão.
Ana Povo foi questionada sobre uma polémica que remonta a fevereiro, altura em que o Diário de Notícias (DN) noticiou que diretores de serviço de cardiologia de quatro hospitais do Norte (Santo António, no Porto, Tâmega e Sousa, Matosinhos e Trás-os-Montes e Alto Douro) subscreveram uma carta sobre o panorama na cirurgia cardíaca na região,
Na missiva, dirigida à ministra da Saúde, alertavam para a lista de espera de doentes com problemas cardíacos a necessitar de cirurgia ou de implantação da válvula da aórtica.
Em entrevista à RTP, o diretor de serviço de Cardiologia da ULSSA, André Luz, disse a 19 de fevereiro que 10 doentes morreram nos últimos três anos devido a uma “lista de espera demasiado elevada” só neste hospital do Porto.
Nessa ocasião, foi atribuída à ULSSA a ambição de vir a criar um centro de referência nesta área e foi revelado um despacho conjunto assinado por Ana Povo, o qual falava da viabilidade da criação de um centro na unidade local de saúde, onde a governante exerceu funções.
“Leia o despacho e verá que não é um despacho decisório. A partir daí não há conflito de interesses nenhuns”, disse Ana Povo em resposta à deputada do Chega Cláudia Estêvão, na quarta-feira.
A secretária de Estado lamentou ainda que na ULSSA haja um cirurgião cardíaco contratado desde 2016 “impedido de operar”.
Atualmente, doentes que necessitem de intervenções nesta área são referenciados para ULS São João, ULS de Vila Nova de Gaia/Espinho, bem como da ULS Braga, uma estrutura que há cerca de dois meses estava a trabalhar a 20% da sua capacidade, prevendo-se que atinja o pleno até ao final do ano.
Também em fevereiro, a Ordem dos Médicos e diretores de serviços, nomeadamente de Gaia e do São João, alertaram para um possível esvaziamento de recursos humanos caso viesse a ser criado um novo centro de referência no Norte.
A 19 de fevereiro, em declarações à Lusa, o diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica da ULS Gaia/Espinho, Paulo Neves, disse “reconhecer a pretensão do Hospital de Santo António”, mas referiu que se estaria “a amputar capacidade aos centros existentes”.
“O objetivo do Santo António é fazer uma abertura de um centro de cirurgia cardíaca com profissionais da nossa instituição. Isso coloca-nos aqui um grave problema porque, naturalmente, temos o serviço dimensionado de uma forma e corremos sérios riscos de deixar de ter capacidade”, referiu.
Apontando saber que, além de cirurgiões de Gaia, já foram contactados perfusionistas (profissionais de saúde especializados em operar a máquina de circulação extracorpórea e dispositivos de suporte cardiopulmonar), Paulo Neves também criticou o modelo de que disse ter tomado conhecimento por médicos da sua equipa e que está a ser desenhado para o novo centro no Porto.
“O modelo de financiamento desse programa que está a ser equacionado no Hospital de Santo António preocupa-nos. Está a ser equacionada a abertura de um centro de cirurgia cardíaca em regime de prestação de serviços. De um lado [referindo-se aos centros referência existentes], cirurgiões a fazer procedimentos complexos e a ganhar 20 e poucos euros à hora. Do outro, cirurgiões a ganhar por procedimento, por ato, e a fazer procedimentos muito mais simples”, descreveu.