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Regeneração cerebral em algumas aves pode inspirar reparações no cérebro humano

LUSA
18-04-2026 00:45h

Investigadores de vários países confirmaram a capacidade de algumas aves para regenerar o tecido cerebral através da neurogénese e já sugeriram a possibilidade de desenvolver terapias que possam promover a reparação do cérebro humano.

Esta descoberta pode ser utilizada nos humanos para combater doenças neurodegenerativas como o Alzheimer no futuro.

Um pequeno pássaro nativo da Austrália — o diamante-mandarim — é famoso pela sua capacidade de aprender novas canções e é um dos favoritos dos cientistas para estudar a forma como os animais conseguem assimilar novas capacidades.

No entanto, numa análise aprofundada, descobriram também novos dados sobre a neurogénese — o nascimento, a migração e a maturação dos neurónios — e como o cérebro é capaz de se reparar.

O trabalho foi liderado pelo cientista Benjamin Scott, professor de ciências psicológicas e cerebrais na Faculdade de Artes e Ciências da Universidade de Boston, e contou com a participação de investigadores do Laboratório de Biologia Molecular do Medical Research Council (MRC) do Reino Unido e do Instituto Max Planck de Inteligência Biológica, na Alemanha.

Ao observar o cérebro da ave com um microscópio de alta potência, os investigadores viram novos neurónios a abrir túneis com força através do cérebro para reforçar os circuitos e as ligações existentes.

Esperavam que os neurónios circundassem cautelosamente as estruturas cerebrais estabelecidas, incluindo as células cerebrais mais maduras, para melhor as preservar, mas, em vez disso, viram-nos a passar diretamente através delas, esmagando-as e deslocando-as.

As descobertas podem também ajudar a explicar a vulnerabilidade humana a várias perturbações cerebrais.

Os investigadores observaram ainda que algumas células cancerígenas metastáticas utilizam a formação destes "túneis celulares" para invadir áreas saudáveis, de acordo com o resumo da investigação divulgado na sexta-feira pela Universidade de Boston.

Tal como os novos neurónios das aves atuam como "batedores" que abrem caminho com força através do tecido cerebral, esmagando e deslocando as células maduras no seu caminho, certas células cancerígenas empregam este mesmo mecanismo invasivo durante a metástase.

Esta capacidade demonstrada por algumas aves pode ajudá-las a aprender coisas novas ou a reparar danos cerebrais, mas pode ter um custo para as células e memórias existentes.

Isto pode explicar porque é que a neurogénese é uma capacidade que os humanos parecem não possuir para além do útero, de acordo com os investigadores.

"Este comportamento potencialmente prejudicial pode ajudar a explicar porque é que os humanos e outros mamíferos têm uma capacidade limitada de regenerar tecido cerebral na idade adulta", indicou Benjamin Scott, acrescentando que isto torna os humanos mais vulneráveis a doenças neurodegenerativas como o Alzheimer.

Os investigadores apresentaram duas hipóteses, ainda não comprovadas, sobre o que estas descobertas podem significar para o cérebro humano: a primeira é que o cérebro humano evoluiu para limitar a neurogénese após o nascimento como forma de proteção, para garantir que os neurónios mais ativos não conseguem atravessar ligações maduras e danificar o armazenamento de memória.

A segunda hipótese, e de acordo com os cientistas, "mais otimista", sugere que a descoberta do "efeito túnel" pode demonstrar que as células se podem mover sem a ajuda das células da glia — as células do sistema nervoso que atuam como suporte essencial para os neurónios.

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