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Sociedade de Cardiologia lamenta “alarme social” sobre centros de referência e pede medidas

LUSA
26-02-2026 15:24h

A presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), Cristina Gavina, lamentou hoje que a discussão sobre doentes em lista de espera para cirurgia cardíaca na região Norte pareça agora focada numa “guerra entre hospitais” e não em soluções imediatas.

“A primeira reflexão a fazer é o que é que nós temos e o que é que precisamos de ter. Qual é a necessidade. Qual é a nossa meta?”, disse à agência Lusa Cristina Gavina que é também diretora do serviço de cardiologia da Unidade Local de Saúde de Matosinhos.

A médica é também uma das subscritoras da carta dirigida à ministra da Saúde e tornada pública na quinta-feira passada na qual quatro médicos de quatro hospitais do Norte (Santo António, no Porto, Tâmega e Sousa, Matosinhos e Trás-os-Montes e Alto Douro) alertam para a lista de espera de doentes com problemas cardíacos a necessitar de cirurgia ou de implantação de válvula aórtica.

À ULS Santo António é atribuída a ambição de criar um centro de referência desta área, enquanto o serviço de cardiologia da ULS Tâmega e Sousa esclareceu no mesmo dia à Lusa que não tem essa pretensão, mas subscreveu a carta para promover uma reflexão global sobre o tema, e o diretor do serviço de cardiologia da ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro, também à Lusa, admitiu que é ambição desta unidade realizar intervenções cardíacas percutâneas.

“Estou completamente à vontade porque faço parte de um centro pequeno que não quer ter cirurgia cardíaca (…). A minha preocupação única é com as listas de espera dos meus doentes. É isso que me está, efetivamente, a incomodar porque não consigo garantir que resolvo o problema depois de o identificar e depois, não sendo resolvido, essas pessoas continuam nas minhas consultas e impedem-me de receber outros doentes”, afirmou.

A SPC fez um retrato deste problema em 2024 e em 2025 publicou um plano estratégico para a saúde cardiovascular para os próximos anos em Portugal.

Nessa altura, “havia movimentação na Comissão Europeia para fazer um plano cardiovascular europeu, logo com possibilidade de financiamento para Portugal”.

Nesse sentido, a responsável lamentou que este tema se esteja a transformar “numa guerra entre hospitais” e possa estar a gerar “alarme social”.

“Neste entretanto as listas de espera continuam a aumentar e começa a haver algumas situações, como aquelas que foram referidas, de nós perdemos doentes em lista de espera. Em Matosinhos já aconteceu, mas eu sou bastante conservadora na forma como abordo este assunto porque não ganhamos nada em criar alarme social, nomeadamente junto dos utentes que ficam desesperados”, alertou.

A médica disse ainda que se pode estar “neste momento, inclusivamente, a levar as pessoas a recorrer ao privado sem haver essa necessidade e muitas vezes sem condições para isso”.

Em entrevista à RTP, o diretor de serviço de Cardiologia da ULS Santo António, André Luz, disse há uma semana que 10 doentes morreram nos últimos três anos devido a uma “lista de espera demasiado elevada” só na Unidade Local de Saúde Santo António.

De seguida, a Ordem dos Médicos (OM) exigiu um esclarecimento, “com caráter de absoluta urgência”, tanto da Direção-Eexecutiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) como do Ministério da Saúde.

E o gabinete da ministra Ana Paula Martins informou, numa resposta enviada à Lusa, que ordenou uma “avaliação urgente” da situação de doentes em lista de espera para cirurgia cardíaca e que a denúncia sobre mortes associadas a eventual ausência de resposta está a ser “analisada com prioridade”.

Já a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) confirmou na quarta-feira que abriu um processo de avaliação aos alegados constrangimentos de acesso a cirurgia cardíaca por utentes SNS.

Para Cristina Gavina a solução não pode passar apenas por dizer: “Abra-se mais um centro e depois vamos ver onde é que vamos buscar os recursos”, mas centra-se “em planeamento”.

“Isto concentrou-se numa guerra entre hospitais e isso está a contaminar a discussão mais importante que devíamos estar a ter. Vejo manifestações múltiplas e alarmismos múltiplos e como presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia acho que se está a desfocar a atenção do essencial (…)”, sublinhou.

E como diretora de um serviço que “drena para o Hospital de São João, a minha preocupação é a resposta. Não quero saber se [Vila Nova de] Gaia e Santo António estão em guerra porque querem ter cirurgia cardíaca e disputam os mesmos cirurgiões. O que eu quero é que nos sentemos todos à mesa, reconheçamos que há um problema e tentemos encontrar uma solução”, disse.

Atualmente, doentes que necessitem de intervenções nesta área são referenciados para os centros de referência da ULS São João, no Porto, ULS de Vila Nova de Gaia/Espinho, bem como da ULS Braga, onde abriu há dois meses uma estrutura que está a trabalhar a 20% da sua capacidade, prevendo-se que atinja o pleno até ao final do ano.

Alertando que, por exemplo as válvulas percutâneas são colocadas pelos cardiologistas de intervenção, não por cirurgiões cardíacos, mas com ‘backup’ de cirurgia cardíaca para o caso de haver uma complicação grave, Cristina Gavina refere “Essas complicações obviamente são raras, mas se acontecerem, a intervenção tem que ser imediata, senão perdemos o doente”.

Insistindo no alerta de que “os recursos são limitados”, defendeu que “ainda que existam hospitais que, tendo capacidade técnica para fazer os procedimentos e achem que têm legitimidade para resolver os problemas dos seus doentes” por falta de resposta dos centros de referência “não é do pé para a mão que se criam serviços com profissionais já com mão, já treinados”.

“Por isso é que é preciso planeamento”, concluiu.

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